segunda-feira, 30 de maio de 2011

A América Espanhola

"O propósito do capítulo é desenvolver as várias faces da conquista e da dominação espanholas, desde a ação mais violenta, passando pela questão das alianças e dos elementos culturais e religiosos que facilitaram a ação dos espanhóis até o aproveitamento de estruturas de dominação já existentes e o estabelecimento de novas formas de controle social e político".

-- Uma conquista sangrenta


Cabeças decepadas. Membros mutilados. Corpos esquartejados. Um verdadeiro massacre. Foi o resultado da passagem de tropas espanholas e portuguesas pelos vários cantos do novo continente batizado de América. 
A partir do século XV, a história dos povos ameríndios foi escrita com brutal violência.
As inúmeras caravelas europeias que atravessaram o oceano Atlântico, a partir do século XV, trouxeram para a América centenas de aventureiros e conquistadores em busca de riquezas, poder e honras. Hernan Cortez, que se empenhou em conquistar e destruir o império asteca, e Francisco Pizarro, o império inca, foram seus principais nomes.
Para dominar os diferentes povos e percorrer longas distâncias, os espanhóis trouxeram cavalos, animais desconhecidos pelos nativos. Além disso, possuíam armas de fogo e espadas de aço, também desconhecidas dos povos americanos.
Tudo isso causou forte espanto porque os espanhóis montados a cavalo, com suas armaduras reluzentes, eram identificados como guerreiros enviados pelos deuses.



Francisco Pizarro

Hernan Cortez e a conquista do Império Asteca






  Quando Hernan Cortez apareceu nas atuais terras mexicanas, em 1519, muitos dos nativos acreditaram que se tratava do deus QUETZALCOATL, que havia retornado. Alguns chegaram a pensar que o cavalo e o seu montador formavam um único ser.
  Cortez foi recebido pelo próprio imperador Montezuma, que lhe ofereceu um grande banquete. Além da comida, Cortez também provou o chocolate ( xocolatl ou cacauatl), bebida considerada sagrada. Segundo a tradição, as sementes do cacau que serviam de base para a bebida, haviam sido deixadas pelo deus QUETZALCOATL e tinham poderes mágicos. Cortez também ficou maravilhado com a grandiosidade da capital.
  Além dos cavalos, armas de fogo e as crenças religiosas, outro elemento foi decisivo para a dominação espanhola: as rivalidades entre os diversos povos e impérios da América.
  Assim, Cortez com 600 soldados, 16 cavalos, 10 canhões e o apoio de populações aliadas arrasou Tenochtitlán, a capital do império Asteca, assassinou o imperador e massacrou milhares de astecas. A cidade         foi formada em 1521, consolidando o domínio na região. Os espanhóis continuaram a saquear. Toneladas de ouro e prata foram enviadas para a monarquia espanhola. Tesouros que fizeram da Espanha o reino europeu mais rico da época.

        

Francisco Pizarro e a conquista do Império Inca

  Em 1513, Francisco Pizarro recebeu as primeiras informações sobre um reino onde se comia e bebia em vasilhas de ouro. Depois de várias tentativas fracassadas, Pizarro chegou aos territórios incas trazendo consigo 168 soldados, 62 cavalos e alguns canhões. Sua chegada ao coração do Império Inca, localizado na cordilheira dos Andes, foi facilitada pelas excelentes condições de suas magníficas estradas. 
  A pedra foi o elemento básico das construções dos Incas, os incas realizavam, nesse local, ritos sagrados e ainda utilizavam como abrigo em caso de emergência. A cidade de Cuzco, situada no Vale Sagrado, era o mais importante centro administrativo e cultural do Império Inca.
  Para construir estradas em terrenos com grandes declives, os Incas usavam do desenho em ziguezague, o que facilitava a circulação, ou de escadas, se necessário.
  As estradas eram estreitas, já que circulavam apenas homens e lhamas com carregamentos. Erguiam muros de arrimo em lugares perigosos para evitar desabamentos. As estradas desempenhavam uma função mais vinculada ao controle do Império  do que o comércio. Ao todo, calcula-se que eram mais de 4 mil quilômetros de estradas cortando o império. Ao longo das estradas, havia construções que serviam para soldados ou funcionários passarem a noite, permitindo uma comunicação rápida entre os diversos lugares.
  Por onde Pizarro e seus soldados passaram, cidades foram incendiadas e saqueadas. Homens, mulheres e crianças foram massacrados sem piedade.
  As riquezas, num volume nunca visto pelos europeus, acabaram por formar a lenda do Eldorado. Haveria um rei na América do Sul, que todos os anos cobriria todo seu corpo com pó de ouro, e depois se banharia num lago brilhante devido ao ouro acumulado. Nesse reino, as habitações seriam feitas de ouro. As ruas, de metais e pedras preciosas. E haveria ainda uma enorme montanha, toda dourada.

Vista parcial do Cerro Rico e Villa Imperial



"A ordem era ocupar, dominar e colonizar"

  Depois dos primeiros contatos com a terra descoberta por Colombo, os espanhóis iniciaram a colonização ocupando a ilha de Hispaniola, atuais Haiti e República Dominicana. Entre 1496 e 1516, milhares de espanhóis chegaram à ilha com o intuito de explorar e conquistar essas terras. O sonho do ouro levou-os à conquista das terras continentais.
  Cortez conquistou o Planalto Mexicano, sede do Império Asteca, em 1521. A região tornou-se conhecida como Nova Espanha e passou a ser o centro do poderio espanhol. A partir dali partiram outras expedições para os atuais El Salvador, Guatemala e Honduras. O Peru foi ocupado entre 1513 e 1533 e serviu de base para a exploração dos atuais Bolívia, Chile e Equador. Entre 1536 e 1580, foi a vez da região da bacia do rio da Prata. Em 1536, foi fundada Buenos Aires, na atual Argentina e, no ano seguinte, Assunção, no Paraguai.

A colonização espanhola

A chegada dos europeus mudou completamente a vida dos nativos que conseguiram sobreviver à matança executada pelos espanhóis, sobretudo por Pizarro. A partir da conquista e ocupação, estabeleceu-se então um sistema de organização administrativa que visava o controle direto da Espanha sobre a colônia espanhola. No século XVI, a administração espanhola na América foi dividida em dois grandes vice-reinos: o Vice-Reinado da Nova Espanha( que corresponde, aproximadamente, aos territórios atuais do México, Flórida, Caribe e Venezuela) e o Vice-Reinado de Peru (que equivale, aproximadamente, aos territórios atuais da Colômbia, Equador, Bolívia, Peru, Chile, Argentina, Paraguai e Uruguai). Além disso, foram constituídas Audiências, encarregadas da administração da Justiça e que também assumiam funções de governo nesse vasto território, mutias vezes presididas pelo vice-rei.



A nomeação dos vice-reis cabia ao Conselho das Índias. Tratava-se do órgão mais importante da administração colonial, encarregado também da nomeação dos funcionários para as audiências e demais cargos administrativos. A única instituição colonial com independência em relação ao Conselho das Índias eram os Cabildos, espécies de câmaras municipais responsáveis pela administração local das vilas e cidades. Os cabildos eram formados por grandes proprietários, comerciantes e mineradores.


Cabildo de Buenos Aires

As terras das aldeias conquistadas eram divididas em pequenos lotes, denominados repartimientos. Então, distribuíam-se esses lotes entre os conquistadores pelas autoridades espanholas. Cada lote vinha acompanhado de um certo número de nativos que iriam trabalhar para os espanhóis. Em troca do trabalho, os europeus se comprometiam a cristianizar os indígenas. Suas almas eram encomendadas ao dono  do lote de terra. Por isso, esse tipo de trabalho denominava-se encomienda, e os donos dos lotes, encomenderos.


Catedral da Cidade do México

A encomienda consistia em uma forma de trabalho obrigatório. Os nativos não tinham liberdade. Eram obrigados a trabalhar para os conquistadores e não recebiam salários. Além disso, eram duramente castigados de acordo com a vontade de seus senhores.
Outra forma de trabalho obrigatória era denominada mita. Não foi criada pelos espanhóis; já era praticada pelos incas. Os povos dominados eram obrigados a fornecer um determinado número de trabalhadores para as atividades que sustentavam o império: agricultura, obras de irrigação, grandes construções.
Os espanhóis substituíram os senhores incas. Além disso, submeteram milhões de indígenas ao trabalho escravo em suas haciendas (fazendas), onde eram plantados fumo, cana-de-açúcar, cacau, e outros gêneros alimentícios. Também obrigaram os nativos a trabalhar em suas estâncias de gado e cavalo. Nesse período, formavam-se grandes propriedades rurais, conhecidas mais tarde como latifúndios.

Mas foram as minas de ouro e prata que concentraram o maior número de indígenas escravizados. Os conquistadores espanhóis retiraram milhões de toneladas de metais preciosos das entranhas da América e mataram milhões de nativos.
Trabalhos exaustivos. Violências de todo o tipo. Doenças como a varíola e a malária. A população indígena foi dizimada e o reino espanhol tornou-se o mais poderoso de toda a Europa até 1650.

As caravelas espanholas passaram a ser substituídas por enormes galeões, que seguiam para a Europa abarrotados de ouro e prata.
Os indígenas foram proibidos de possuir cavalos até o século XIX. Mesmo assim, membros de alguns povos conseguiram obter o precioso animal de guerra através de assaltos a haciendas e do contrabando em troca de metais preciosos. Com cavalos, os ataques às terras ocupadas pelos senhores brancos tornaram-se mais frequentes. Inúmeros animais eram levados para aldeias indígenas. Milhares se perderam pelas planícies da América formando bandos selvagens. O cavalo aparecia nas paisagens que se tornaram excelentes montadores.


terça-feira, 24 de maio de 2011

A América Colonial Espanhola

" A conquista da América pelos espanhóis significou a dizimação de boa parte dos povos nativos e a submissão da cultura daqueles que foram dominados, manifestando uma severa intolerância para com os diferentes modos de viver e ver o mundo das populações pré-colombianas.
Comportamento análogo ao dos espanhóis também se fez sentir no contato que os portugueses tiveram com os indígenas, em sua colônia americana; ou na relação que os norte-americanos travaram com as populações nativas que encontraram o caminho do Oeste dos atuais Estados Unidos, no século XIX. Outro exemplo seria, ainda, o tratamento dispensado pelos alemães aos judeus, durante os anos 30 e 40 do século XX.
Choques entre culturas diferentes são um fenômeno cruel da humanidade, ocorrido em várias épocas e envolvendo vários povos. E em cada caso, a guerra, a exploração econômica e social ou outras formas de violência tornaram-se práticas usuais para o exercício da dominação. Será que, na atualidade, há mais ou menos intolerância e conflitos entre diferentes etnias? Sob os valores da cultura europeia ou norte-americana importada, como se apresentam as culturas pré-colombianas hoje em dia?"


O PACTO COLONIAL E AS CIVILIZAÇÕES PRÉ-COLOMBIANAS


A integração da América ao contexto europeu se deu por meio do colonialismo mercantilista. O crescimento do comércio europeu a partir do século XV, graças à expansão marítima, provocou uma verdadeira revolução comercial. Tendo definido que seus objetivos econômicos eram acumular ouro e prata, várias Coroas europeias partiram para a montagem e exploração de impérios coloniais.
Desde o princípio, observa-se que as colônias europeias na América tinham uma função econômica bem definida, a de se converterem em parceiras econômicas de suas metrópoles e um comércio essencialmente desigual, isto é,  que resultaria em vantagens para apenas um dos lados. Assim, as nações europeias obteriam na América os recursos para a balança comercial favorável, o que, de outra forma, seria difícil obter na Europa.
Entre colônias e metrópoles foi estabelecido um conjunto de normas que regulamentaram suas relações, o chamado pacto colonial. Segundo essas normas, as metrópoles exerceriam o exclusivo comercial, isto é, o monopólio sobre tudo o que as populações das colônias importassem ou exportassem. Outro princípio estabelecia que, enquanto a metrópole se concentrava no comércio, mais lucrativo, a colônia se dedicaria à produção.
Um lucrativo comércio colonial era fundamental para a prosperidade da burguesia metropolitana e, portanto, da manutenção de um Estado absolutista forte. Foi com esses objetivos em vista que os europeus se estabeleceram na América. Submetendo a população nativa, explorando o seu trabalho, exterminaram grande parte dessas populações, o que causou o declínio de povos evoluídos como os incas da América do Sul e os astecas do México.
Por volta do final do século XV, estima-se que cerce de 100 milhões de indígenas ocupavam a América, incluindo povos em diferentes graus de desenvolvimento tecnológico, desde antropófagos seminômades até avançadas civilizações urbanas. Os chamados incas eram chefiados por um imperador que, além de chefe militar, era considerado um deus na terra, o ''filho do sol''. O auge desta civilização ocorreu nos séculos XV-XVI , entre 1438 até a chegada dos espanhóis à região, em 1531.

Ruínas do Machu Picchu

Em todo o império, viviam e trabalhavam aproximadamente seis milhões de pessoas. Predominava a servidão  coletiva em uma sociedade fortemente hierarquizada. A terra era considerada propriedade do imperador, administrativa por funcionários locais, que, em todas as aldeias, determinavam a organização do trabalho, o montante dos impostos destinados ao imperador e a mita, trabalho compulsório em obras públicas ( incluindo obras de irrigação e "terraços" cultiváveis nas íngremes encostas das montanhas andinas, garantindo a produção de excedentes agrícolas e, em última análise, a própria sobrevivência do povo inca).
A civilização tinha o seu centro na península de lucatã, na região Sudeste do atual México, e conheceu seu apogeu entre o séculos III e XI. Organizava-se em cidades-estado, como Palenque, Tikal e Copan. O domínio social era exercido por uma elite religiosa e militar de caráter hereditário. Em torno dos centros urbanos, encontravam-se aldeias de camponeses submetidos à servidão coletiva. Pouco se sabe a respeito das causas da decadência maia. Suas cidades foram abandonadas e, na época da chegada dos espanhóis, não mais existia uma civilização maia organizada.
A civilização asteca foi a mais grandiosa das civilizações da Mesoamérica. Os astecas chegaram a controlar um império que se estendia do Oeste mexicano até o Sul da Guatemala, incluindo uma população de talvez 12 milhões de habitantes. Sua capital, Tenochtitlán (atual cidade do México), cobria uma área de 13km²,  e chegou a ter mais de 100 mil habitantes.
O império Asteca foi formado no século XV, tendo entrado em decadência com a invasão espanhola. O último imperador, Montezuma II, assistiu à destruição do império e de sua bela capital durante a conquista promovida pelo espanhol Fernão Cortez, entre 1519 e 1521.

A AMÉRICA ESPANHOLA

A ideia de expansão da fé católica por meio da conversão dos indígenas foi utilizada como justificativa para a exploração da América. Até o final do século XVI, os europeus já haviam subjugado os grandes impérios inca e asteca, por força de sua agressividade, superioridade técnica militar ( uso de armas de fogo e cavalos, desconhecidos na América até então ) e até habilidade política, ao fazer e desfazer alianças, jogando povos indígenas uns contra os outros. As doenças europeias, desconhecidas dos nativos e para as quais seus organismos não possuía resistências, também foram responsáveis pelo extermínio de grande número deles.
Durante os primeiros dois séculos da colonização, XVI e XVII, os espanhóis se concentraram na extração de metais preciosos (ouro e prata do México e Peru), denotando o caráter da exploração das colônias hispânicas. Cumpriam-se os objetivos das práticas mercantilistas, com a transferência das riquezas coloniais para a metrópole espanhola.

Explorava-se o trabalho indígena por meio da mita, instituição já existente no Império Inca. Afastados de suas comunidades, os indígenas eram forçados a trabalhar nas minas, recebendo em troca um salário irrisório e tornando-se vítimas das péssimas condições de trabalho, o que os levava à morte. A larga utilização da mita acabou por arruinar a estrutura comunitária indígena.
Outra forma de exploração do trabalho foi a encomienda, bastante empregada pelos espanhóis, desde os primeiros anos de colonização. O rei da Espanha, por meio dos administradores coloniais, distribuía a encomenderos, obrigatoriamente espanhóis estabelecidos na América, o direito de explorar o trabalho de indígenas, devendo em troca oferecer-lhes uma educação cristã.
A sociedade colonial, hierarquizada, era controlada pelos chapetones, espanhóis provenientes da metrópole que cuidavam da administração, justiça, clero e exército. Abaixo deles, estavam os criollos, verdadeira aristocracia colonial, formada por homens brancos, descendentes de espanhóis, porém nascidos na América. Eram grandes proprietários de terras ou dedicavam-se ao comércio. Politicamente detinham um espaço de atuação em âmbito local, uma vez que exerciam o controle sobre as câmaras municipais (os chamados cabildos ou ayuntamientos).
Numa posição inferior, encontravam-se os mestiços, nascidos da união de espanhóis com indígenas. Eram trabalhadores livres. diferentemente dos indígenas, submetidos à mita e à encomienda. Finalmente, existia um limitado número de escravos negros, em sua maior parte concentrados na região do Caribe.
Do ponto de vista administrativo, o gerenciamento da colonização era feito na Espanha, por meio do Conselho Real e Supremo das Índias, cujo representantes nas colônias eram os chapetones. A atividade comercial e a arrecadação de impostos eram realizadas pela Casa de Contratação que, para melhor controlar o comércio colonial, instituiu o regime do ''porto único''.

O conselho das Índias nomeava os vice-reis e fiscalizava sua administração. Dentro de cada vice-reinado existiam divisões administrativas chamadas intendências, governadas pelos alcaides. As cidades mais importantes possuíam suas próprias câmaras municipais, e não eram raros os choques entre elas (controlada pela elite criolla) e os alcaides e demais autoridades representadas pelos chapetones.
A crescente prosperidade econômica da América foi grande fator gerador de tensões entre criollos e chapetones. De fato, grande parte da riqueza produzida, notadamente os metais preciosos, era transferida para a metrópole, em prejuízo das colônias. Ao mesmo tempo, a autoridade total dos chapetones sobre os criollos e o veto à participação destes na administração colonial (além da municipal) culminariam, no século XIX, com o movimento de independência da América Espanhola.



segunda-feira, 23 de maio de 2011

A América Colonial Inglesa



" A questão dos refugiados"
"As 13 colonias inglesas na América do Norte foram colonizadas inicialmente, em grande parte, por refugiados políticos e religiosos. A perseguição a opositores de regimes políticos tem sido a marca de várias sociedades ao longo da história.
Atualmente, guerras, conflitos, intolerância e, acima de tudo, o abismo econômico separando paises ricos e pobres acabam forçando grandes contingentes da população a mudarem de pais e de vida. Mas será que, no início do século XXI, ainda é possível fundarem-se países constituídos por um população de refugiados, como ocorreu com a América colonial Inglesa? Se não, qual o destino desses indivíduos?"


As colonias inglesas na América do Norte apresentam certas peculariedades se comparadas com as demais ibero-americanas. Tais diferenças foram provocadas, entre outros motivos, pelo início tardio do processo de colonização (a partir, principalmente, do fim do século XVI) , seu caráter em grande parte espontâneo e as próprias características físicas do litoral da América do Norte (região não tropical, carente de metais preciosos).
A rainha inglesa Elizabeth I (1558-1603) estimulou a construção naval e o comércio marítimo, dando vazão à política mercantilista. Por essa época, desencadearam-se operações corsárias no litoral do Caribe, que saqueavam os galeões espanhóis repletos de metais preciosos a caminho da Europa. As crescentes tensões entre Inglaterra e Espanha resultaram em confronto armado e, em 1588, a chamada Invencível Armada dos   espanhóis foi destruída pela marinha inglesa no mar do Norte.
Um dos estímulos ao fluxo populacional da Inglaterra para a América do Norte, colaborando para seu povoamento, foi o processo de cercamentos das propriedades agrícolas em solo inglês, o que gerou grande excedente demográfico. Expulsos do campo e não encontrando espaço na economia urbana, as vítimas dos cercamentos acabaram formando grande contingente populacional e rumaram para a América. Ao mesmo tempo, os crescentes conflitos políticos e religiosos dentro do Estado Inglês estimularam a emigração de vários grupos protestantes, como os puritanos e os quakers, grupo dissidente dos calvinistas ingleses, fundado no século XVII.


AS TREZE COLÔNIAS INGLESAS


Na região da Virgínia, os primeiros núcleos de produção inicialmente dedicaram-se à obtenção do tabaco, produto largamente consumido na Europa. Mais tarde, também se produziu o corante índigo (anil), arroz e algodão. Além da Virgínia, outras colônias se transformaram em grandes centros de produção agrícola, como Geórgia, Carolina do Norte e do Sul. Maryland e Delaware.




Essas colônias, situadas ao sul do território inglês da América do Norte, podem ser consideradas colônias de exploração, semelhantes ao estilo predominante nas colônias portuguesas e espanholas, no sentido de terem se fundado economicamente no regime de plantation (latifúndio monocultor, baseado em trabalho escravo e cuja produção estava voltada para o mercado externo).
Mantendo poucos laços políticos e econômicos com a Inglaterra, as colônias do Norte passaram a desenvolver uma produção manufatureira e um comércio cada vez mais intenso e diversificado. Logo, a construção naval progrediu, tornando possível maior articulação entre as colônias e a obtenção de itens  externos, e até o comércio de longa distância, que atingia as colônias inglesas do Caribe, a África e a Europa.
As restrições e o controle intensivo sobre a colônia, tão característicos do mercantilismo ibérico, não se apresentaram na colonização inglesa da América do Norte. De fato, desde sua fundação. jamais houve um projeto normativo inglês de colonização.
Ao mesmo tempo, os intensos conflitos políticos internos na Inglaterra do século XVII, como a Revolução Puritana de 1641, a posterior Guerra Civil e a Revolução Gloriosa de 1688, contribuíram para afrouxar laços de dominação, o que afetou inclusive as colônias do Sul, mais vinculadas à metrópole. Pode-se inclusive falar de um relativo desinteresse inglês em relação às suas colônias.
Na verdade, já existia uma certa autonomia econômica e política, pelo menos entre as colônias da Nova Inglaterra. Mais tarde, no século XVIII, a Inglaterra emergiu como potência mundial, e a monarquia liberal inglesa trouxe a estabilidade política ao país. Nesse momento, buscou-se uma redefinição do papel das colônias, sujeitando-as a uma política fiscal inglesa e impondo o fim de suas liberdades comerciais e políticas. Os conflitos daí gerados acabariam por culminar no processo de independência das 13 colônias inglesas na América do Norte.

     A COLONIZAÇÃO INGLESA NA AMÉRICA DO NORTE




domingo, 22 de maio de 2011

O processo de Independência dos Estados Unidos

Liberdade para todos?


" A independência dos Estados Unidos traz à tona o tema da liberdade diante de uma metrópole que intenta submeter colonos aos seus ditames políticos e econômicos.
Os colonos valeram-se de ideias construídas durante as lutas populares contra a dominação aristocrática na Inglaterra no século XVII - com a de "inglês nascido livre" e do direito inalienável dos povos de se rebelarem contra a tirania - para conquistar a independência norte-americana. Porém, na montagem do novo país, os diversos povos indígenas nativos e os africanos escravizados não foram incorporados, e sim mantidos à margem da direção do novo Estado, sem direitos e, como no caso dos escravos de origem africana, subjugados.
Que liberdade é essa que servia apenas a alguns? Será que todo projeto político-social baseia-se em propostas que só satisfazem uma parcela da sociedade? "


A QUEDA DO ANTIGO REGIME E A ERA DAS REVOLUÇÕES


Ao final do século XVIII, foi desencadeado, na Europa, o processo da queda do Antigo Regime. Tal processo pode ser caracterizado pelo colapso do Estado moderno absolutista e sua substituição por um novo  tipo de Estado, plenamente controlado pela burguesia, o chamado Estado liberal.
A independência dos Estados Unidos, marco do início da derrocada do Antigo Regime, foi influência pela difusão das ideias iluministas. Ao pregarem o direito à liberdade e de resistência a um governo autoritário, essas ideias forneceram a base teórica não só para a independência, mas também para a edificação do novo Estado.


A LUTA PELA INDEPENDÊNCIA

GUERRA DOS SETE ANOS


Aos poucos, o Parlamento inglês foi lançado as bases de uma política fiscal, ou seja, de uma legislação voltada para a cobrança de impostos sobre os colonos da América. A guerra dos Sete Anos (1756-1763) contra a França acelerou o processo, ao desequilibrar as finanças do Estado inglês. Essa guerra também serviu de justificativa para a metrópole inglesa taxar os colonos, na medida em que o conflito se desenrolou parcialmente em território norte-americano: a Inglaterra pode argumentar ter sido uma guerra em defesa da América inglesa contra as agressões francesas; por isso, os colonos deveriam ajudar a cobrir seus gastos.
No ano seguinte, o governo inglês, visando ampliar a arrecadação, determinou o Stamp Act (lei do selo), segundo o qual todo material impresso publicado nas colônias deveria receber um selo vendido pela metrópole, cujo valor acabaria incorporado ao preço. Inconformados, os colonos reuniram-se em Nova York, no Congresso da Lei do Selo, rejeitando o novo imposto e repudiando qualquer relação, inclusive comercial, com a metrópole, pelo menos enquanto os habitantes das 13 colônias não tivessem uma representação no Parlamento inglês.
Em 1773, foi elaborado o Tea Act (Lei do Chá), por meio do qual o produto passou a ser monopolizado pela Companhia das Índias Orientais, sediada em Londres. A medida, criada pelo ministro Charles Townshend, intensificava a tributação colonial e ampliava o controle da venda do produto, combatendo o contrabando do chá holandês e excluindo os norte-americanos do comércio do chá britânico.



 Charles Townshend


A reação inglesa não tardou. Impostas logo a seguir, as Leis Intoleráveis determinavam o fechamento do importante porto de Boston (o mais movimentado das 13 colônias), o pagamento de pesada indenização, a ocupação militar da colônia de Massachussets (onde se localiza Boston) e o julgamento de funcionários ingleses somente por tribunais de outra colônia ou na Inglaterra.
Indignadas, as lideranças dos colonos reuniram-se no primeiro congresso continental da Filadélfia, em 1774,  decidindo-se pelo boicote aos produtos metropolitanos. No ano seguinte, no segundo congresso, determinaram a separação em relação à Inglaterra.
Em 4 de julho de 1776, foi publicada a declaração de independência dos Estados Unidos da América. Redigida por Thomas Jefferson, com a colaboração de Benjamin Franklin e John Adams, entro outros,  inspirava-se fortemente nas ideias iluministas de John Locke. Após a proclamação da autonomia, Franklin foi enviado à França para obter apoio ao novo país, enquanto George Washington foi encarregado de preparar um exército para garantir a independência diante da reação metropolitana. Após a vitória na batalha de Saratoga, em 1777, sob a liderança de Washington, os norte-americanos obtiveram o apoio decisivo da Espanha e da França, que estava interessada em debilitar a Inglaterra e recuperar as perdas sofridas na Guerra dos Sete Anos.



Thomas Jefferson



Em 1781, o general inglês Cornwallis rendeu-se em Yorktown, dando início às negociações que culminaram com o tratado de Paris de 1783, por meio do qual a Inglaterra reconhecia a independência de suas 13 colônias.










       INDEPENDÊNCIA DAS 13 COLÔNIAS NA AMÉRICA DO NORTE



sábado, 21 de maio de 2011

As Independências na América Espanhola

Qual o papel do Brasil na América Latina?
" O processo de independência na América espanhola foi diferente do ocorrido na América portuguesa? Refletir sobre as semelhanças e diferenças entre os dois processos significa um ponto de partida para a análise de inserção do Brasil no conjunto da América Latina. O que nos une aos demais países latino-americanos e o que nos separa deles? A unidade latino-americana foi um sonho acalentado desde o tempo das independências. Qual a importância da união latino-americana tanto no passado como no presente? "


PREPARANDO O CENÁRIO DAS INDEPENDÊNCIAS


O desenvolvimento econômico capitalista, o triunfo do liberalismo, o imperialismo e a efervescência nacionalista e socialista europeias também envolveram as Américas no século XIX, seguindo, porém, as peculiaridades históricas regionais. Conquistadas e colonizadas por europeus, as Américas (do Sul, Central e do Norte) exerceram e continuaram exercendo um decisivo papel no desenvolvimento capitalista ocidental, especialmente com o crescente e volumoso comércio transatlântico e, mais tarde, entre o Norte e o Sul do próprio continente americano. As independências políticas latino-americanas não resultaram em desenvolvimento socioeconômico autônomo, e sim em dependência em relação aos centros dinâmicos do capitalismo, especialmente Inglaterra, no ínício, e Estado Unidos, a seguir. No final do século XIX, este país, já então poderoso economicamente e acompanhado o expansionismo imperialista europeu, impôs seu controle geopolítico sobre boa parte dos assuntos americanos, processo que se completaria no início do século seguinte.
Na passagem do século XVIII para XIX , com o declínio do Antigo Regime, o liberalismo político e econômico forneceu a base ideológica para a superação definitiva dos entraves que barravam o progresso capitalista. Enquanto os Estado Unidos lutavam por sua independência, as metrópoles ibéricas continuavam envolvidas com as práticas mercantilistas e colonialistas, que dificultavam o livre comércio e o desenvolvimento manufatureiro, requisitos fundamentais para a autonomia e sucesso econômico no mundo da época. Foi nesse período que, em represália à não-obediência ao bloqueio do continental, as tropas napoleônicas invadiram Portugal e ocuparam a Espanha, desencadeando o processo de independência da América Latina.
Os criollos, membros das elites hispanos-americanas, desejavam romper com a metrópole monopolista, que lhes dificultava as transações mercantis, sobretudo com a Inglaterra, principal pólo econômico do mundo. Para os colonos, a Coroa espanhola restringia os setores produtivos, além de limitar o acesso aos cargos administrativos e políticos. Para a Inglaterra, por outro lado, interessava a independência das colônias, uma vez que eliminaria as barreiras monopolistas comerciais e ativaria novos mercados, indispensáveis ao seu progresso industrial. Criollos e ingleses tinham, portanto, interesses comuns, que convergiam para o mesmo objetivo: a independência das colônias espanholas na América. Os chapetones, grupo minoritário da América espanhola (300 mil indivíduos) composto por espanhóis nascidos na metrópole, detinham os mais altos cargos da administração colonial, confrontando-se com a elite local. Os chapetones desejavam a manutenção das relações metrópole-colônia, enquanto os criollos, seguidores dos ideais iluministas liberais e do exemplo norte-americano, eram partidários do livre comércio e da luta pela independência, embora não cogitassem mudanças na estrutura socioeconômica.
De um lado, as rebeliões locais, as manifestações isoladas, sinalizavam o esgotamento do sistema colonial. De  outro, eram manifestações dos vários projetos de independência. Na luta contra a opressão metropolitana destacaram-se a rebelião de Túpac Amaru (1780), no Peru, e a de Francisco Miranda (1811), na Venezuela.


Francisco Miranda, criollo venezuelano, foi o primeiro a liderar um movimento temporariamente vitorioso de libertação: a Venezuela proclamou sua independência em 1811. Em 1812, entretanto, numa contra-ofensiva do exército espanhol, os conjurados foram derrotados e Miranda foi preso, morrendo pouco depois em Cádiz, na Espanha.


AS GUERRAS DA INDEPENDÊNCIA


O enfraquecimento da metrópole espanhola, com a intervenção napoleônica e as renúncias sucessivas dos reis da família Bourbon, Carlos IV e Fernando VII, e a coroação do irmão do imperador francês, José Bonaparte, estimularam o movimento autonomista liderado pelos criollos. Organizados em cabildos (câmaras municipais), os colonos formaram juntas governativas, depondo as autoridades metropolitanas e assumindo a administração das colônias. Entre 1810 e 1814, os centros urbanos coloniais hispano-americanos transformaram-se nos grandes irradiadores dos ideais separatistas, contando com o apoio inglês e a adesão de parte da população.
A revolução que libertaria a maioria dos paises latino-americanos aconteceu entre 1817 e 1825, tendo como líderes Simón Bolívar e José de San Martín, que percorreram quase toda a América Latina, com o apoio efetivo da Inglaterra e dos Estados Unidos. Os rebeldes foram favorecidos ainda pela distância da metrópole e pela situação interna da Espanha, envolvida numa revolução liberal entre 1820 e 1823, o que dificultou a remessa de tropas contra-revolucionárias à América.


Simón Bolívar, que ficou conhecido como "o libertador", foi um exemplo típico dos ideais da elite criolla. Nascido na capitania-geral da Venezuela, republicano, comandou a luta pela libertação da América Latina, partindo dos atuais territórios da Venezuela e do Peru em direção ao sul, defendendo uma América do Sul livre, unida e forte. San Martín, embora com os mesmos ideais, defendia um governo monárquico constitucional e iniciou seus movimentos partindo de Buenos Aires em direção ao norte, no chamado "movimento sulista".


José de San Martín


Em 1810, ocorreu a primeira tentativa de emancipação política no México ( na época, vice-reinado da Nova Espanha), distinguindo-se dos outros movimentos da América Espanhola, pois partiu das massas populares e foi predominantemente rural. Encabeçando a insurreição, sucederam-se Miguel Hidalgo, o padre Morellos e o Vicente Guerrero, que enfatizaram as reformas sociais populares, propondo o fim da escravidão, a igualdade de direitos e a condenação da aristocracia fundiária e dos altos funcionários.

Vicente Guerrero


Enviado pelo vice-rei para lutar contra os insurretos mexicanos, Agustín Itúrbide aliou-se de forma oportunista a Guerrero, em  1821, formulando o plano de Iguala, que proclamava a independência do México, a igualdade de direitos entre criollos e espanhóis, a supremacia da religião católica, o respeito à propriedade e um governo monárquico. A Coroa foi oferecida a Fernando VII da Espanha, que sofria forte oposição liberal em seu país, confirmando o projeto de uma independência  feita pelas mesmas elites (criollos e chapetones laicos e o clero) que dominavam o México na fase colonial.

Agustín Itúrbide


Em 1822, entretanto, Itúrbide proclamou-se imperador, como título de Agustín I, sendo deposto e fuzilado logo a seguir num levante republicano. Em 1824, o México tornava-se efetivamente independente e elegia seu primeiro Presidente, o general Guadalupe Vitória, sem que fosse minimamente arranhada a estrutura agrária e social que mantinha a maioria da população submetido ao controle das elites mexicanas.
Na América do Sul, o Paraguai constituiu uma República em 1813, chefiada pelo criollo Gaspar Francia. A atual Argentina proclamou sua independência em 1816, que, entretanto, só seria consolidada pelos êxitos militares de Manuel Belgrano e San Martín. O Uruguai, que desde 1821 estava incorporado ao Brasil com o nome de Província Cisplatina, transformou-se em Estado independente, em 1828, com  o nome de República Oriental do Uruguai.
O Chile foi libertado por San Martín, à frente de cerca de 5 mil homens no chamado Exército dos Andes, em 1818, após as batalhas de Chacabuco e Maipú. Bernardo O'Higgins, líder do movimento de libertação na região, foi nomeado dirigente do Estado chileno.
Dirigindo-se para o Peru, acompanhado pelo mercenário inglês lorde Cochrane, San Martín alcançou e libertou Lima, principal centro de resistência espanhola, em 1821. Simón Bolívar, por sua vez, apoiado pela Inglaterra e pelos Estados Unidos, organizou um exército regular e libertou a Venezuela em 1817, a Colômbia em 1819 e o Equador em 1821, dirigindo-se ele também ao Peru.
As forças de ambos encontraram-se em Guayaquil, no Equador, no ano seguinte, quando San Martín desistiu de seu projeto monárquico, aderindo à proposta republicana de Bolívar, a quem coube consumar a independência do Peru, só conseguida definitivamente com a batalha de Ayacucho, em 1824. No congresso do Panamá (1826), quando quase toda a América Latina já estava independente, Bolívar tentou concretizar seu ideal de unidade política, defendendo alianças entre os Estados hispano-americanos, a criação de uma força militar comum e a abolição da escravidão, entre outras medidas.
Inicialmente unida ao México, a América Central proclamou em 1824 a sua independência, formando as Províncias Unidas da América Central, unidade que pouco durou, pois as pressões inglesas e norte-americanas fragmentaram a região, levando à divisão em repúblicas autônomas a partir de 1838: Guatemala, El Salvador, Nicarágua e Costa Rica.
No aspecto político, chefes locais, em geral líderes oriundos das forças militares mobilizadas pelos criollos nas guerras de independência, passaram a disputar o poder de suas respectivas regiões. Tais chefes - comandantes carismáticos, autoritários, personalistas, que irradiavam magnetismo pessoal na condução de seus comandados -  foram denominados caudilhos.
Essa divisão de poderes criou um quadro de anarquia e de dificuldades para a  consolidação dos novos Estados Nacionais. Desunião e instabilidade deram forma ao caos que devorou o ideal de Simón Bolívar de plena soberania e liberdade popular nas novas nações.


      AS INDEPENDÊNCIAS NA AMÉRICA ESPANHOLA

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Astecas, maias e incas

Principais fontes para o estudo dos povos americanos
        Usamos deversas fontes para o conhecimento da Historia dos povos da América antes da chegada dos europeus, entre as quais cabe citar:
      1° Fontes da cultura material (restos de túmulos, templos, objetos de cerâmica, esculturas, pinturas rupestres etc.). Como a maioria dos povos da América não possuía escrita, os materiais pesquisados pelos arqueólogos tornam-se as principais fontes para o estudo desses povos;
      2° Fontes escritas 
      a) Códices: escritos e desenhos deixados por alguns povos americanos, como os astecas e os maias;
      b) Textos escritos deixados por europeus que viveram à América, como o trecho a seguir, extraìdo de uma carta de Cristóvão Colombo:
       "Não encontrei os monstros humanos que muitas pessoas esperavam que eu encontrasse. Pelo contrário, toda a população é muito benfeita de corpo. Não são negros como na Guiné, e seu cabelo é liso".
        3° Fontes orais: entrevistas e testemunho de pessoas que descendem de povos que aqui viviam antes da chegada dos europeus.
Espaço e diversidade cultural
       Estima-se que por ocasiãos da chegada de Colombo, em 1492, viviam na América cerca de 54 milhões de pessoas. Essa pessoa pertenciam a povos bem diferentes entre si, não só na aparência ou no nome, mas também no modo de viver e de pensar.
         Neste capitulo, vamos estudar os povos americanos antes do contato com os europeus, e daremos especial atenção aos astecas, maias e incas.
Os astecas
             Os astecas ou mexicas, nome que eles davam a si próprios, contam o seguinte mito sobre seus primeiros tempos de vida.
       Eles viviam no norte da América e, certo dia, por serem um povo andarilho, decidiram deixar Astlán, sua terra natal, e caminhar em direção ao sul. Depois de muito caminhar, avistaram uma águia empoleirada num cacto, que trazia uma cobra presa ao bico e a uma de suas patas. Os sacerdotes astecas consideraram aquela águia um sinal dado por seu deus, Uitzilopochtli, de que era ali que eles deviam se fixar e recomeçar a vida. E foi o que fizeram.
Tenochtitlán, a capital asteca 
          Em pouco tempo, Tenochtitlán cresceu e os astecas passaram a submeter outros povos da região e a incorporar elementos de suas ricas culturas.
       Grande parte dessa enorme riqueza de Tenochtitlán vinha dos pesados impostos cobrados aos povos vencidos. Cada uma das cidades dominadas pelos astecas era obrigada a pagar vários impostos, todos os anos.
        Assim nasceu o Império Asteca. Quando os espanhóis chegaram à América, Tenochtitlán era uma cidade com cerca de 200 mil habitantes, quatro vezes mais do que Londres, a maior capital europeia. Era cortada por dezenas de canais, por onde circulavam barcos carregados de mercadorias, e aquedutos, que traziam água doce das montanhas. A capital astecas possuía também templos, ruas retas e amplas e um mercado central rico e movimentado.
A sociedade asteca 

       No topo da pirâmide social estava o imperador, considerado um ser semidivino. Seu poder e sua responsabilidade eram grandes; em caso de seca prolongada, por exemplo, era ele que fornecia comida e roupa aos necessitados.
       Abaixo do imperador vinham os nobres, que atuavam como sacerdotes, altos funcionários públicos ou militares.
       Os militares tinham enorme prestígio na sociedade asteca; os mais valentes ingressavam nas importantes ordens militares, como a dos cavaleiros-águia.
       Já os agricultores e os soldados constituíam a maioria da população masculina asteca. Por fim, havia escravos, prisioneiros de guerra, condenados pela justiça ou indivíduos que, por causa de envolvimento com o jogo ou a bebida, haviam sido escravizados.
Esporte e saúde
       Os astecas tinham grandes paixão pelo esporte e praticavam uma série de jogos; um dos preferidos era o tlachtli.
        No tocante à saúde, os astecas desenvolveram tratamentos eficientes com base no grande conhecimento da flora e fauna locais. O médico do rei espanhol Filipe II registrou cerca de 1200 plantas usadas pelos astecas para fins medicinais. As doenças eram atribuídas à vontade dos deuses ou a feitiços. Os astecas usavam a adivinhação e a oração, mas, ao mesmo tempo, sabiam curar fraturas, feridas e fazer remédios à base de gordura animal e plantas medicinais, para os mais diversos fins.
Os maias
       Os maias viviam na Península de Yucatán, região que corresponde hoje a Guatemala, Honduras, Belize e ao sul do México.
       Copán é considerada a mais bela cidade maia. Por sua arquitetura e construções, foi chamada pelos historiadores de Alexandria do mundo maia. Os maias eram bons construtores e foram os inventores de um tipo de cimento eficiente, que permitia colar, umas às outras, as grossas pedras de seus edifícios e estradas.
Política, sociedade e economia
       Diferentemente dos astecas, os maias nunca formaram um grande Império, mas, como os astecas, construíram grandes cidades. As cidades maias, como Chichen-Itzá, Maiapán, Palenque e Tikal, eram pequenos Estados independentes, ou seja, tinham governos, leis e costumes próprios. Nelas, viam-se palácios, estradas com até dez metros de largura e templos na forma de pirâmide.
        Enquanto as pirâmides egípcias serviam de túmulos para os imperadores, as perâmides maias serviam de esteio para os templos religiosos, erguidos em seu topo. Os sacerdotes desses templos consideravam-se, assim, mais próximos dos deuses. Algumas pirâmides chegavam a ter setenta metros de altura.
Sociedade e economia
      A sociedade maia era hierarquizada: a elite era formada por nobres e sacerdotes; abaixos deles vinham os artesãos e os trabalhadores livres, agricultores em sua maioria. Os nobres e os sacerdotes ajudavam o governante máximo de cada cidade a dirigi-la. Ele era visto pelo povo como representante dos deuses. Os camponeses  acreditavam que, para conseguir boas colheitas, tinham de pagar impostos a esse governo "sagrado". Os impostos eram pagos com parte do que eles produziam e com trabalhos gratuitos para o governo (como reparo e construção de estradas).
Astronomia
      Os maias destacavam-se também no campo da astronomia. Os astrônomos maias conseguiam prever, com grande precisão, os eclipses do Sol, descrever as fases de Vênus e elaborar calendários que facilitavam seu dia a dia. Além disso, conseguiam calcular a duração do ano quase com a mesma precisão dos cientistas de hoje.
 Os incas
        Um mito inca diz que os incas tinham origem divina, por isso eram chamados de filhos do Sol. Diz também que o Império Inca foi fundado por dois personagens lendários, Manco Cápac e sua irmã e esposa, Mama Ocilla.
        Sabe-se hoje que, por volta do ano 1400, os incas viviam da agricultura e do pastoreio nas terras altas (temperadas e frias) da cidade peruana de Cuzco. Por volta de 1438, esse grupo de língua quíchua conquistou a cidade de Cuzco e, nas décadas seguintes, expandiu seus domínios tanto ao norte como ao sul, contruindo assim o maior Império indígena da América. O primeiro Sapa Inca (imperador) chamava-se Pachakuti.
       Entre as principais cidades do Império Inca, estavam Cuzco e Machu Picchu. A cidade de Cuzco, a capital, era famosa por suas construções planejadas, seus templos decorados e suas ruas movimentadas.
  Mapa do Império Inca
Sociedade e economia 

Agricultura em terraços em Pisaq
      Os incas tinham uma agricultura desenvolvidas; utilizavam um sistema de irrigação por canais e uma técnica agrícola que aproveitava terraços cavados nas encostas das montanhas (sistema de terraços). Os camponeses constituíam a maioria da população. Cada aldeia era formada por um conjunto de famílias camponesas unidas por laços de parentesco que recebia o nome de ayllu; o chefe do ayllu era o Kuraqa. Os habitantes do ayllu plantavam milho, feijão, batata e pasroteavam os lhamas e as alpacas (animais de carga semelhante ao lhama).
       As terras de cada ayllu eram divididas em três partes: uma para o imperador, uma para os deuses (isto é, para os sacerdotes) e outra para as famílias camponesas. Além de trabalhar todas as terras, os camponeses eram obrigados a prestar serviços gratuitos ao Estado, como reformar e construir estradas.
       Em que direção caminhariam os incas, os astecas e os maias caso os espanhóis não tivessem interrompido bruscamente sua trajetória? Isso nunca saberemos, mas de sua enorme capacidade de erguer cidades, viver e progredir num meio hostil ninguém pode duvidar.
Lhama

Livro, Filme, Site
  • CLARE, John D. Os astecas: vida cotidiana. São Paulo: Melhoramentos, 2002.
  • MACHADO, Ana Maria. Explorando a América Latina. São Paulo: Ática, 2000
  • Os maias - Discovery. Disponivel em: <www.discoverybrasil.com/guia_maia/index.sthml>

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Colonização espanhola da América

         Logo que os espanhóis chegaram à América com Colombo, em 1492, viram que os nativos da ilha Hispaniola, os aruaques, usavam enfeites de ouro. Nas viagens seguintes, então, fazendo uso de armas de fogo, obrigaram os aruaques a extrair para eles o ouro ali existente. Esgotado o ouro da ilha, os espanhóis partiram para conquista do continente.
A conquista das terras astecas   
         O oficial espanhol Hernán Cortez desembarcou nas terras onde é hoje o México com 508 soldados, além de cavalos e canhões. Por intermédio de Malinche, indígena com a qual passou a viver, Cortez ficou sabendo que vários povos da região eram inimigos mortais dos astecas. Cortez, entao, estabeleceu uma aliança com esses povos e, com a ajuda deles, chegou à capital asteca, em 1519.
        Ao que tudo indica, o imperador asteca, Montezuma, confundiu Cortez com um deus asteca e o recebeu com vários presentes. Mas Cortez e seus soldados o aprisionaram e logo começaram a tomar objetos de ouro dos astecas. Assim teve início a violência entre eles. Um dos episódios mais violentos foi o massacre, ordenado por um oficial espanhol, de astecas que dançavam e cantavam desarmados em uma grande festa. Os astecas chamaram o episódio de "Noite Triste".
Quetzalcoatl, deus asteca
 Ruínas do Templo Mayor
         Posteriormente, os astecas contra-atacaram obrigando os espanhóis a se refugiar em Tlaxcal, a cidade de seus principais aliados. Com o Tempo, porém, Cortez reorganizou suas forças e, com um exército formado de 150 mil indígenas e 900 espanhóis, bombardeou e invadiu a capital asteca. Em 1521, tinha fim o Império Asteca.
A conquista das terras incas
        A notícica de que o Eldorado era mesmo na América estimulou a cobiça de outro aventureiro espanhol, Francisco Pizarro. Acompanhado de apenas 180 homens, alguns dos quais a cavalo, Pizarro entrou nas terras incas em 1532 e logo conquistou a cidade de Cajamarca. Depois de instala-se nessa cidade, convidou o inca Atahualpa para um encontro reservado. Este aceitou o convite e rumou para o local.
         Asssim que Atahualpa chegou , Pizarro mandou prendê-lo e ordenou a seus soldados que atirassem nos incas de surpresa. Em seguida, os espanhóis partiram para a conquista de Cuzco, a mais importante cidade do Império Inca. Para isso, contaram com a ajuda do povo Wanka, inimigo ferrenho dos incas, e também com a divisão entre os próprios incas, motivada pelas disputas entre os irmãos Atahualpa e Huáscar ao trono. Depois de tomar Cuzco, Pizarro fundou a Ciudad de los Reyes, 1535, atual Lima, e fez dela a capital do domínio espanhol.
A resistência inca
          Os incas não se deram por vencidos e, liderados pelo imperador Manco Inca, abriram luta de vida ou morte contra os espanhóis, no sul do Peru. As lutas entre incas e espanhóis se prolongaram até 1572, quando estes aprisionaram e decapitaram Tupac Amaru, o último líder da resistência inca.
Como tão pouco derrotaram tantos? 
      Cortez chegouao México com 508 soldados e Pizarro entrou no Peru com 180. como tão poucos espanhóis conseguiram vencer tantos nativos? Existem várias razões para isso; vamos enumerar algumas delas.
  1. A superioridade bélica: Os espanhóis, além de espadas e armaduras, tinham armas de fogo com poder destrutivo muito superior às armas indígenas, e que impressionavam pelo barulho que faziam. Eles contavam ainda com cavalos, animais que os astecas e os incas nunca haviam visto e que, a princípio, os aterrorizaram.
  2. Doenças: As doenças trazidas pelos espanhóis, como sarampo, Varíola e gripe, mataram mais que as armas de fogo, pois os indígenas não tinham defesas contra tais doenças. O sucessor de Montezuma foi uma dessas vítimas: reinos oitenta dias e morreu de varíola.
  3. A  insatisfação dos povos dominados: Tanto os astecas como os incas tinham inimigos internos, e os espanhóis souberam tirar proveito disso, aliando-se a eles. Na conquista do México, por exemplo Cortez contou com a ajuda de cerca de 150 mil combatentes indígenas.
Colonização na América espanhola
         Durante o processo de conquista, os espanhóis iniciaram também a colonização da América, isto é, a ocupação, administração e exploração do território americano.
Administração espanhola
          Inicialmente, por meio de contratos, o governo da Espanha transferiu a particulares, homens como Cortez e Pizarro, o direito de conquistar e explorar as terras americanas. Posteriormente, a monarquia espanhola foi centralizando a administração e aumentando seu controle sobre as populações e as riquezas coloniais. Para isso, o governo da Espanha criou dois importantes órgãos:
          A Casa de Contratação, com sede em Sevilha, cidade portuária da espanha, foi criada em 1503 para controlar o comércio e a navegação entre a Espanha e suas colônias americanas. O controle era feito pelo sistema de porto único: os navios que iam para as colônias só podiam sair de Servilha. 
         Cuba, Guatemala, Venezuela e Chile, todas situadas em áreas estratégicas. Essas capitanias deviam defender as colônias de possíveis ataques de piratas, ingleses em sua maioria. Criou-se também o sistema de frotas e galeões, ou seja, os navios só podiam seguir juntos (em frotas) protegidos por navios de guerra (os galeões).
Sociedade e poder na América espanhola
      As sociedades hispano-americanas eram formadas basicamente por cinco grupos: chapetones, criollos, mestiços, indígenas e negros escravizados.
 - Chapetones: Colonos nascidos na Espanha; ocupavam os principais cargos políticos, militares e religiosos e tinham enormes privilégios.
 - Criollos: Filhos de espanhóis, mas nascidos na América. Eram ricos fazendeiros, donos de minas e grandes comerciantes. Eram impedidos de ocupar altos cargos, exceto o de vereador nas câmaras municipais (cabildos).
 A economia colonial
          Nos primeiros 250 anos da colonização, a principal atividade econômica na América espanhola foi a mineração.
Retrato de Indigenas trabalhando no palacio de Cortez
A mineração
          Foi com a descoberta das ricas minas de prata de Potosi (atual Bolívia), em 1545, e Zacatecas (atual México), no ano seguinte, que a mineração se transformou na atividade mais importante da América espanhola. Considerando as minas propriedade sua, o rei da Espanha mandou distribuir lotes auríferos àqueles  que tivessem dinheiro para iniciar sua exploração. Já o penoso trabalho de arrancar metais preciosos do fundo das minas seria feito pelos indígenas.
Agropecuária
       Na América espanhola se praticatam também a agricultura, a pecuária e a fabricação de panos grosseiros (tecelagem). Entre as plantas mais cultivadas estavam cacau, batata, milho e tabaco (nativas da América) e cana-de-açúcar (introduzida na América pelos europeus); além disso, criava-se gado de corte e de transporte (como mulas e cavalos). Prata, ouro, açúcar, tabaco, charque (carne salgada), couro e sebo eram exportados para a Europa e também abasteciam as cidades.
       Com o declínio da mineração, no século XVIII, a agricultura e a pecuária se desenvolveram ainda mais; aumentou o número de fazendas que produziam gêneros como cacau ( Venezuela), açúcar e tabaco (Santo Domingo e Cuba). Os trabalhadores dessas fazendas eram, geralmentes, africanos escravizados, trazidos para a América em grande número a partir da segunda metade do século XVII. a grande fazenda escravista produtora de um gênero tropical (açúcar, cacau, anil etc.) destinada  ao mercado externo é chamada de plantation.
A imagem ao lado é de uma plantation (fazenda produtora de açúcar nas Antilhas, século XVII)







    Livro, Site, Filme
    • FERREIRA, Jorge Luiz. Conquistou e colonização da América Espanhola. São Paulo: África, 1999.
    • Pucllana. Disponível em: <www.pucllana.perucultural.org.pe>
    • Aguirre, a cólera dos deuses. Direção de Werner Herzog. Alemanha: New Line, 1972. (110 mim).